quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Prevenção em saúde mental

   Ações preventivas podem ser definidas como intervenções desenvolvidas para se evitar o surgimento de doenças específicas, através da detecção, do controle e da mitigação dos fatores de risco dessas enfermidades (Czeresnia, 2003; Buss, 2003). Segundo Giovanni Abrahão Salum Júnior, coordenador júnior do Projeto Prevenção, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Psiquiatria do Desenvolvimento para a Infância e Adolescência, a Psiquiatria está buscando uma abordagem preventiva, pois vários transtornos mentais, como a depressão, o transtorno do deéficit de atenção/hiperatividade e a esquizofrenia, podem se tornar crônicos, mesmo com tratamento, trazendo sofrimento e prejuízos sociais e econômicos. Giovanni Salum destaca que esse é um referencial novo, já que, em geral, a área da saúde mental tem se dedicado mais ao tratamento e à reabilitação dos portadores de distúrbios mentais.
Giovanni Salum explica que

as pesquisas sobre a relação entre fatores genéticos e o ambiente sugerem que os genes não determinam as doenças de forma definitiva, os transtornos psiquiátricos são resultado de uma interação complexa entre vários genes de pequeno efeito (isto é, cada gene é responsável por parte dos sintomas) e diversos fatores ambientais

   As pesquisas indicam que os fatores ambientais são capazes de alterar a nossa biologia. Embora eles não sejam capazes de modificar a sequência do DNA que herdamos, o ambiente é capaz de alterar quais e como os genes são expressos em determinadas células durante o neurodesenvolvimento. A exata relação entre os fatores genéticos e os fatores ambientais, bem como a magnitude do risco do desenvolvimento de uma psicopatologia ainda são aspectos desconhecidos e provavelmente são bastante diferentes para cada pessoa. Giovanni Salum destaca que existe a possibilidade de serem criadas estratégias de prevenção, quando se considera o papel, ainda inexplorado, do ambiente em “ativar” e “desativar” as porções do nosso DNA. 
    Com a definição dos fatores de risco para o desenvolvimento de determinados problemas de saúde mental, no futuro, será possível desenvolver programas de prevenção seletiva (aplicados para indivíduos com os fatores de risco específicos) e programas de prevenção indicada (aplicados para indivíduos que já manifestam emoções e comportamentos disfuncionais, mesmo que ainda não preencham diagnóstico formal). Giovanni Salum afirma que esses dois tipos de programas de prevenção são mais indicados porque os programas de prevenção universais (quando as intervenções são aplicadas para todas as crianças, sem a identificação de quais estão em risco) são mais caros e podem não atingir as especificidades de cada transtorno.
    Outros estudos buscam pesquisar sobre estados mentais de risco para a esquizofrenia e para o transtorno afetivo bipolar. Estado mental de risco é um conjunto de sintomas ou comportamentos que indicam a possibilidade do aparecimento futuro de um transtorno mental grave. Existe na literatura a hipótese de que uma intervenção na fase de estado mental de risco pode alterar o curso do transtorno, sendo possível reduzir o sofrimento dos adolescentes e prevenir a conversão para quadros mais graves, por isso é um dos campos mais promissores para as pesquisas. 
    Para realização de ações preventivas, o psicólogo trabalha com a comunidade em ações dirigidas para a população em geral ou para segmentos específicos, por exemplo, crianças e adolescentes, buscando reduzir a ocorrência de problemas de ajustamento e promover a construção de competências associadas à saúde mental. O objetivo é promover fatores de proteção, aspectos sadios que podem ser ativados diante de situações adversas. Nessa abordagem, o psicólogo não impõe a adoção de comportamentos, ele estimula o fortalecimento do grupo para que, se surgir alguma adversidade, os indivíduos sejam capazes de ultrapassar o problema através da resiliência ou consigam enfrentar e reagir, utilizando suas habilidades de vida.
    O conjunto de fatores de proteção de cada indivíduo, explica Sheila Murta, funciona como um recurso de ajuda na interação com eventos estressores da vida, evitando consequências negativas para a saúde mental. Exemplos de fatores de proteção são os vínculos afetivos, o humor, o bom funcionamento cognitivo (inteligência), as habilidades de comunicação e as habilidades sociais (relação interpessoal), relacionamentos sociais e afetivos (rede de apoio social), acesso aos serviços de saúde e à educação e as políticas públicas de proteção aos direitos humanos. A promoção de fatores de proteção pode ser realizada em diferentes áreas da Psicologia, como a Psicologia comunitária, Psicologia escolar e a Psicologia da saúde.
    Darío Cunha Ramirez, pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina, esclarece que os riscos relacionados à saúde mental podem ter diversas origens: física (como doenças genéticas ou adquiridas), social (por exemplo, um ambiente violento), psicológica (efeitos de abuso, negligência ou exploração, entre outros). O que determina que uma pessoa seja vulnerável ou resiliente? A definição de eventos ou situações como prejudiciais ou favoráveis não é única para todas as pessoas e para os diferentes contextos. A literatura científica tem destacado cinco fatores gerais que explicam as variações individuais frente à adversidade: idade, personalidade, suporte social, experiências anteriores e os modelos de relação entre família e criança.
    Uma das metodologias para promover os fatores protetivos é o ensino de habilidades sociais, como, por exemplo, a habilidade para a tomada de decisões e para a resolução de problemas, o pensamento crítico e a comunicação eficaz de sentimentos, habilidades de recusa, dentre outras.

Treinamento de habilidades sociais pode colaborar para a prevenção de transtornos psicológicos e outros desajustes emocionais, podendo ser realizado, por exemplo, nas escolas e nas empresas

     Sendo assim, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, a psicoterapia não é indicada apenas nos casos em que há um transtorno psicológico instalado. A busca por um psicólogo colabora para a prevenção de dificuldades posteriores, para o bem-estar emocional e, consequentemente, para uma melhor qualidade de vida!


Texto adaptado do Portal Ciência & Vida, de Maria Thereza Bonilha Dubugras. Fonte: http://portalcienciaevida.uol.com.br/esps/edicoes/74/artigo250009-1.asp

 

Um comentário:

  1. Tô investindo justamente nessa área aqui em Poços, Alineee!
    Existem poucas propostas neste país para a prevenção

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